Este local é, com certeza, dedicado aos 90% do meu cérebro que não tenho certeza de para que servem... Entre um cigarro e outro, entre o dia e a noite, nas beiradas de um talvez qualquer, fico gastando palavras, me espreguiçando nas frases, me escondendo entre as reticências...
Ao leitor deixo o agradecimento pelas palavras que eu não disse, mas que, ainda assim, acabaram por ser ouvidas...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Viajando na espera

Quase 23 horas. E é nesse quase que a viagem ocorre, no escuro do carro, portas travadas e o som ligado. Hoje foi Rolling Stones, ontem foi Zeca Baleiro, amanhã é outro dia e uma outra voz, dentro do leque das infinitas possibilidades... Quem sabe um beijo intranquilo de clássicos? Tudo misturado, talentos diferentes, mas ainda assim talentos... Mas no contexto, o som é apenas um detalhe, assim como as portas travadas, os vidros meio abaixados, deixando entrar um ar primitivo de noite. Pelo retrovisor vejo pessoas diferentes das que vejo pelo vidro frontal. Viajo no passo dessas pessoas. Pela porta aberta do cursinho onde pego minha filha começam a brotar os jovens. Vejo uma boca pintada aqui, um olhar entediado ali, corpos sarados em camisetas justas, longos cabelos esvoaçantes... Sinto a fragrância que não é vendida nas perfumarias: juventude. Imagino os sonhos da garota que desce sem pressa, um andar meio torto de charme; penso em quais seriam os projetos do rapaz em camiseta cavada, tatuagem tribal no braço e olhar de sorriso... Capto o andar arrastado de um senhor, onde seus passos o estarão levando? Vejo o ciclista equipado com fones de ouvido, voando em sons que não ouço...
 E vejo, precedendo a saída por mim esperada, o jovem que espreguiça e envia uma mensagem truncada de cansaço/preguiça, estampando no rosto um enfado precoce... Conhecerá ele os caprichos da vida? Terão começado suas batalhas diárias, onde não há senão empates? Me percebo torcendo para que experimente, com brevidade, o deleite dos pequenos ganhos, capazes de apagar da memória a pancadaria constante.
E chega minha filha, o "pedaço mais eu de mim mesma" e recolho essas impressões todas em silêncio, afim de não apedrejar a plenitude de seu sorriso perfeito.
Amanhã a noite o mesmo processo retorna: sou eu viajando na espera...

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